Calor recorde na Europa deforma asfalto, mata milhares e paralisa usinas

Por Lia Rizzo 29 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Calor recorde na Europa deforma asfalto, mata milhares e paralisa usinas

Não foram só as cúpulas climáticas globais. Pouco mais de um ano atrás, um estudo publicado na revista Nature Climate Change advertiu que sete em cada dez cidades europeias falhavam em se preparar para temperaturas extremas, ainda que o continente já esquentasse no dobro da velocidade registrada no resto do planeta.

Conduzido por um consórcio internacional sob o título Explaining the adaptation gap through consistency in adaptation planning, o levantamento examinou 327 centros urbanos e encontrou um abismo entre aquilo que cada governo dizia temer e o que de fato executava para se defender.

Naquele momento, era um aviso. Agora é a realidade incontestável do continente. Uma cupula de calor, sustentada por um bloqueio atmosférico que os especialistas chamam de "Bloco Ômega", estacionou sobre a Europa e aprisionou sob si uma massa que vem batendo marca após marca.

A massa de ar funciona como uma tampa sobre o continente. A alta pressão prende o calor, que desce, comprime-se e esquenta ainda mais, sem brecha para nuvens ou ventilação. Este bloqueio resiste por dias seguidos avançando lentamente do oeste para o leste do continente, mudando assim o endereço do calor.

Estima-se que atualmente mais de 190 milhões de europeus tenham enfrentado, neste domingo, patamares acima de 35°C.

Da Ibéria ao Báltico, o mapa do sufoco

A península ibérica foi a primeira a sentir o golpe. Na Espanha, ao menos 212 óbitos entre 21 e 24 de junho podem ter relação com o calor, conforme o Instituto de Saúde Carlos III. Quando o termômetro começou a ceder, um incêndio florestal a nordeste de Barcelona obrigou 16 mil pessoas a permanecer em casa.

Na França, onde o pico já passou, o país bateu seu recorde de calor em dias consecutivos, além da noite mais abafada desde 1947. O custo veio em vidas: a agência nacional de saúde pública apurou cerca de mil mortes adicionais entre 24 e 27 de junho, a maioria de pessoas acima de 65 anos que faleceram em casa, concentradas na região de Paris.

Outras 55 morreram afogadas ao buscar alívio em rios e canais, e um menino de três anos não resistiu preso no carro da família, na capital. Diante do cenário, o premiê Sébastien Lecornu acionou o grau máximo de mobilização sanitária, com mais de 50 departamentos sob alerta vermelho ao mesmo tempo.

Mal o calor afrouxou, tempestades violentas atingiram o norte do país, com raios que provocaram incêndios e deixaram dezenas de milhares de imóveis sem energia.

Nos Países Baixos, as autoridades emitiram um alerta vermelho inédito e mandaram cancelar o festival Defqon.1 com o público já a caminho. Mais ao norte, o Reino Unido bateu seu recorde de junho em três dias seguidos, com 36,9°C em Wattisham.

Em Londres, a London Climate Action Week ofereceu a imagem mais simbólica da semana. Um painel sobre os efeitos do calor caiu porque o prédio, a centenária biblioteca da London School of Economics, sem ar-condicionado, ficou quente demais.

Pelas ruas, trilhos deformados pela onda de calor obrigaram operadoras a reduzir a velocidade dos trens e suprimir viagens. "Nossa infraestrutura não está preparada para esta temperatura", resumiu uma especialista no meio da conferência.

No coração do continente, a Alemanha viveu o capítulo mais dramático na malha viária. O país registrou 41,3°C em Saarbrücken, recorde nacional ainda sujeito a confirmação oficial, e o asfalto cedeu.

Acima de cerca de 60°C na superfície, o pavimento amolece e se dilata, e as placas de concreto se expandem até arrebentar, num fenômeno que os alemães chamam de blow-up. Assim, trechos das Autobahns foram fechados ou restringidos na Baixa Saxônia, na Baviera, em Renânia do Norte-Vestfália, em Hessen, em Brandemburgo e na própria Berlim.

Num ponto deformado de Brandemburgo, a pista levantada avariou mais de 20 veículos e feriu duas pessoas, com prejuízo calculado em torno de 100 mil euros.

As noites tampouco trouxeram trégua, e Bautzen, no leste, não viu o termômetro descer de 29,4°C. Na capital, a polícia usou canhões de água para refrescar a população, enquanto a Deutsche Bahn desaconselhou viagens não essenciais.

A vizinha Suíça enfrentou estragos igualmente palpáveis. A usina nuclear de Beznau desligou seus dois reatores porque a água do rio Aare, usada no resfriamento, chegou a 25°C, nível que ameaçava o equilíbrio do leito ao receber de volta uma corrente aquecida.

Nas montanhas, geleiras passaram a derreter as reservas de neve do inverno semanas antes do esperado. Enquanto o oeste começava a respirar, o forno se mudava de endereço. A República Tcheca anotou 40,6°C no sábado e aguardava valores ainda maiores no domingo.

Na Polônia, a máxima histórica de 40,2°C, de 1921, ficou ameaçada, e várias cidades montaram cortinas de água nas ruas enquanto o governo disparava mensagens pedindo cautela. E a Eslováquia caminhava para superar seu teto de 40,3°C, de 2007, com risco de três dias seguidos acima dos 40°C, algo inédito desde o início dos registros, em 1871.

Até a Dinamarca cravou 36,6°C, sua maior temperatura desde 1874. Pela frente, segundo a Severe Weather Europe, plataforma especializada em previsão de tempo severo, o núcleo quente deve alcançar os países bálticos e, no início da próxima semana, a península balcânica, com quase 40°C em boa parte do território.

A ciência fecha o cerco em tempo real

A ciência, que costuma levar anos para vincular um evento ao aquecimento, desta vez respondeu com a vaga ainda em curso.

Em estudo rápido publicado na sexta-feira, o World Weather Attribution classificou o episódio como o mais severo já registrado na Europa para o mês e o atribuiu sem rodeios à queima de combustíveis fósseis.

Os números do trabalho ajudam a dimensionar o salto. O calor noturno, o mais perigoso porque rouba do corpo a janela de recuperação, está hoje aproximadamente cem vezes mais provável do que em 2003.

As máximas do dia, dez vezes. Ao medir o estresse térmico em 854 cidades de 30 países, os cientistas constataram que 45% delas já romperam, ou devem romper, seu próprio teto para o mês.

A própria Organização Meteorológica Mundial repete o pano de fundo, de que a Europa é o continente que mais rapidamente esquenta, em ritmo superior ao dobro da média global.

Tudo isso recoloca em foco o estudo do ano passado. Apesar do aquecimento acelerado, quase metade das localidades analisadas sequer havia formulado planos formais de adaptação, segundo dados da Agência Europeia de Meio Ambiente incorporados à pesquisa.

Onde os planos existiam, costumavam parar no diagnóstico. Embora 81 deles reconhecessem a alta de perigos ligados a tempestades e ventos intensos, apenas 28% fixaram metas concretas para reforçar a resiliência.

A falha se aprofunda quando entram as populações mais frágeis. Somente 43% dos planos que identificaram riscos a grupos vulneráveis, como idosos, pessoas em situação econômica precária e minorias étnicas, traziam medidas específicas de proteção.

Apenas 4% incluíam essas comunidades nos protocolos de acompanhamento, e meros 1% as colocavam no centro da estratégia.

Boa parte do represamento se explica pelo ambiente político. O resultado das eleições europeias de 2024 foi lido por analistas como uma virada contra agendas climáticas ambiciosas, com menos cadeiras para os Verdes e mais ênfase da Comissão Europeia em competitividade.

Desde 2020, as prioridades dos cidadãos migraram para segurança econômica e tensões geopolíticas, e a pauta ambiental escorregou para a quarta posição nas sondagens do Eurobarômetro.

Ainda assim, os autores enxergam outra explicação, de que cresceu a cobrança por adaptação em vez de mitigação, "refletindo não menor interesse pelo tema, mas sim perda de confiança na capacidade governamental de realizar as transformações necessárias".

O descompasso não é só europeu. O Relatório sobre a Lacuna de Adaptação 2024 do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, batizado de Come Hell and High Water, calcula uma necessidade global entre 187 e 359 bilhões de dólares por ano.

Mesmo com o financiamento internacional subindo de 22 bilhões em 2021 para 28 bilhões em 2022, o valor cobre apenas 5% do exigido. Vinte e poucos anos atrás, a onda de calor de 2003 matou mais de 70 mil pessoas no continente, e a lembrança volta a pesar.

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