Como um sapateiro do interior gaúcho criou uma marca de luxo espalhada pelo mundo
Jorge Bischoff costuma resumir sua trajetória de forma direta: começou como sapateiro. Nascido em Igrejinha, no interior do Rio Grande do Sul, uma das regiões mais tradicionais da indústria calçadista brasileira, ele entrou cedo nas fábricas da cidade e aprendeu na prática cada etapa da produção.
“Eu sou sapateiro de origem, com muito orgulho”, diz.
Antes de lançar a marca que leva seu nome, Bischoff trabalhou como modelista, o profissional responsável por transformar o desenho do calçado em um produto viável para produção. Mais tarde, criou um estúdio de desenvolvimento que chegou a atender mais de 30 fabricantes do setor, desenhando coleções e ajudando empresas a estruturar áreas comerciais.
A virada veio no fim dos anos 1990.
Durante a inauguração de um novo espaço do estúdio, um jornalista perguntou quando ele lançaria sua própria marca. A ideia parecia improvável para o próprio Bischoff. “Um alemãozinho do interior do Rio Grande do Sul, com um nome complicado de pronunciar”, diz.
Algumas semanas depois, decidiu tentar. A primeira loja da Jorge Bischoff foi aberta na rua Padre Chagas, em Porto Alegre. A aposta era simples: criar um espaço de varejo que ajudasse a entender diretamente o comportamento da consumidora.
Mais de duas décadas depois, a marca se transformou em uma rede com mais de 140 lojas, presença em 60 países e cerca de 2 milhões de itens vendidos por ano. Agora, a empresa busca ampliar o negócio para além dos calçados.
Das primeiras lojas ao modelo de franquias
Nos primeiros anos, a empresa abriu poucas unidades próprias enquanto aprendia a operar no varejo.
A expansão acelerou quando a marca decidiu apostar no sistema de franquias.
Hoje, a Jorge Bischoff tem cerca de 127 lojas exclusivas no Brasil, além de pontos de venda multimarcas e unidades licenciadas no exterior. O Equador concentra a maior parte das operações internacionais da marca, com lojas em cidades como Quito e Guayaquil.
Além disso, a empresa exporta para mais de 60 países. Ainda assim, as vendas externas representam uma parcela relativamente pequena do negócio — entre 5% e 8% da receita.
Ao todo, os produtos da marca são fabricados em parceria com 13 unidades industriais, sendo 10 no Brasil e três no exterior. O modelo permite manter produção elevada sem concentrar a operação em uma única fábrica.
Nos últimos anos, a empresa também passou a expandir a rede de franquias para cidades de médio porte, muitas delas ligadas ao agronegócio. A estratégia levou lojas para municípios como Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, Boa Vista, em Roraima, Porto Velho, em Rondônia, Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, e São José do Rio Preto, em São Paulo.
O movimento acompanha uma tendência de interiorização do consumo no Brasil, impulsionada pela expansão econômica de regiões fora dos grandes centros.
Para 2026, o plano da empresa é abrir cerca de 20 novas lojas.
A aposta em novas categorias de produto
Ao mesmo tempo em que amplia a rede de lojas, a empresa tenta transformar a marca em algo mais amplo do que uma fabricante de sapatos e bolsas. Uma tendência que acompanha as grandes grifes de luxo de fora do país.
“A Jorge já deixou de ser uma marca de sapato e bolsa”, afirma Bischoff. “Hoje é uma marca que participa da vida da consumidora em diferentes momentos.”
A estratégia passa pela criação de novas linhas de produtos e experiências ligadas ao universo da marca. Nos últimos anos, a empresa lançou itens como aromas para ambientes, malas de viagem e vinhos.
A marca Bischoff Wines começou a ser desenvolvida em 2017 e hoje comercializa cerca de 20 mil garrafas por ano. Os vinhos são produzidos no Valle de Uco, em Mendoza, na Argentina, enquanto os espumantes são elaborados na Serra Gaúcha em parceria com a vinícola da família Geisse.
O movimento mais recente dessa estratégia foi a entrada no mercado de óculos. A primeira coleção de eyewear da marca foi lançada no fim de 2025, com investimento superior a 1 milhão de reais. Inicialmente, a linha inclui apenas óculos de sol femininos, vendidos nas lojas da própria rede. A expectativa é ampliar o projeto nos próximos anos com modelos de grau, voltados para o mercado óptico.
Segundo Bischoff, o objetivo é construir novas categorias sem perder o posicionamento da marca.
“A gente poderia ser muito maior se fosse mais liberal nas decisões, mas prefere manter o padrão que construiu ao longo dos anos”, diz.
Para os próximos anos, o plano é continuar expandindo a rede de franquias e fortalecer essas novas frentes de negócio. Um sonho antigo, de ter um hotel, por exemplo, está no radar. Bischoff ensaiou a abertura antes da pandemia, mas precisou por o pé no freio com a crise de coronavírus. Agora a ideia é apostar num naming right de alguma construção parceira.
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