Eleição na Colômbia tem soldados com rifles e discursos em cabines blindadas
Bogotá - Ver a fachada da Casa de Nariño, a sede da Presidência da Colômbia, é uma missão quase impossível sem autorização. Foi criada uma área de bloqueio que cerca vários quarteirões ao redor do palácio, e os pontos de entrada são vigiados por soldados armados, com rifles ostensivos.
A proteção ostensiva é uma lembrança clara de que a política no país, que realiza o primeiro turno da eleição presidencial no domingo, 31, tem sido marcada pela violência.
No ano passado, o senador Miguel Uribe, pré-candidato à Presidência, foi morto a tiros ao sair de um evento em Bogotá.
Depois disso, os candidatos passaram a reforçar sua segurança. Abelardo de la Espriella, que está em segundo lugar nas pesquisas, tem feito comícios em uma caixa de vidro blindado e usa colete à prova de balas por cima da roupa em algumas ocasiões.
O ministro da Defesa, Pedro Sánchez, afirmou que 408.000 agentes foram mobilizados em todo o país para garantir a segurança durante a eleição presidencial, além de aeronaves, navios, drones, antidrones e blindados.
"Fazer eleições na Colômbia não é o mesmo que fazê-las na Suíça. Existem riscos à democracia. Isso não deve ser ignorado", disse.
Abelardo de la Espriella, candidato a presidente, discursa protegido por vidro à prova de balas em Medelín (Jaime Saldarriaga/AFP)
Segurança como tema central
A segurança pública é um dos principais temas da eleição. Segundo pesquisa feita pela Invamer/Caracol Noticias, a segurança é a principal preocupação dos colombianos, citada por 40,8%.
A Colômbia vive sua maior onda de violência em uma década. Em 2025, 14 mil pessoas foram mortas no país. Segundo relatório da entidade Médicos Sem Fronteiras (MSF), 221 a cada 100.000 homens morrem assassinados, quase dez vezes a mais do que no Brasil, que tem taxas em torno de 24,5 homens para cada 100.000. A média mundial é de 8,8.
"Uma vez perguntei aos meus alunos, de 11 anos, quantos tinham perdido integrantes de suas famílias nos confrontos entre guerrilhas e paramilitares. De 28 crianças, 20 tinham perdido familiares, que foram assassinados", disse uma professora de uma área rural, ao MSF.
Nas cidades, há uma série de roubos feitos com brutalidade, que terminam com as vítimas mortas a facadas ou a tiros. Há também alta no número de sequestros.
No interior do país, confrontos entre guerrilheiros, parte deles ex-integrantes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), voltaram a ganhar força nesta semana.
Ao menos 48 guerrilheiros morreram em confronto entre dois grupos na Amazônia colombiana. As duas facções disputam o controle territorial de áreas de mineração ilegal e a exploração de rotas de tráfico.
Além disso, grupos criminosos estão usando mais drones em ataques. Agora, os aparelhos que levam explosivos voam em grupos, o que aumenta seu poder letal, inclusive contra alvos da polícia e do Exército.
Segundo o Ministério da Defesa da Colômbia, citado pela agência Associated Press, houve 333 alvos atacados com drones em 2025, ante 61 em 2024.
Cerca de um terço do país, ou 386 municípios do país, estão vulneráveis à violência de grupos armados ilegais, segundo a Missão de Observação Eleitoral da Colômbia.
As propostas dos candidatos
Ao ser eleito, o atual presidente, Gustavo Petro, adotou uma estratégia chamada de "paz total", que previa negociações com grupos criminais e guerrilheiros que voltaram à ativa após o acordo de paz com as Farc, em 2016.
Iván Cepeda, o candidato do governo, quer seguir nos esforços de diálogo e defende que o crime seja combatido via desmonte de suas redes financeiras.
Seu principal rival, Abelardo de la Espriella, defende medidas firmes, como construir megapresídios onde os presos se alimentem a "pão e água" e fiquem "dez andares debaixo da terra", bombardear acampamentos de narcotraficantes com aviões americanos e eliminar o tribunal surgido do acordo de paz.
Paloma Valencia, de direita tradicional, defende uma abordagem focada no aumento do efetivo policial, mais investimentos em investigação e aumento do controle nas zonas mais críticas.
"A segurança é a bandeira principal dos candidatos de oposição, em particular porque têm o argumento de que essa degradação da segurança se deve ao fracasso do programa de Paz Total de Petro", diz Yann Basset, professor de ciência política na Universidade de Rosário, em Bogotá, que estuda a política colombiana há 20 anos.
"Isso afeta diretamente Iván Cepeda como candidato, porque ele foi o cérebro e também a pessoa que colocou em marcha este programa de negociação que, efetivamente, não resultou em nenhuma desmobilização de nenhum grupo", prossegue. "É muito difícil para ele porque toda a sua vida política foi construída sobre a ideia de paz."
Como estão as pesquisas na Colômbia?
Todas as principais pesquisas mostram Cepeda na frente no primeiro turno e uma disputa pelo segundo lugar entre Espriella e Valencia.
Segundo a AtlasIntel, Cepeda tem 39% dos votos, Espriella 37% e Valencia, 14%.
Para a Invamer, Cepeda tem 45%, Espriella 32% e Valência, 14%.
Em todos os estudos, haverá segundo turno, a ser disputado em 21 de junho. As pesquisas mostram um cenário apertado nesta etapa. Cepeda vencería, segundo a Invamer, por 52% a 45%. Já Espriella vence na AtlasIntel, com 50% a 41%.
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