Geração Z avança na logística e redefine o perfil de profissionais do setor

Por Layane Serrano 2 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Geração Z avança na logística e redefine o perfil de profissionais do setor

A logística brasileira, historicamente marcada por operações intensivas e rotinas pouco flexíveis, está passando por uma transformação silenciosa. E ela tem nome e idade: Geração Z.

Nos últimos dois anos, a presença desses jovens no setor praticamente dobrou, saltando de 10,5% em 2024 para 19,5% em 2026, segundo levantamento da Platform Science. Ao mesmo tempo, os millennials já representam 52,8% da força de trabalho, consolidando uma mudança geracional que começa a impactar não só as operações, mas também a cultura e as decisões estratégicas das empresas.

Essa nova configuração revela uma inflexão importante: a logística deixa de ser apenas operacional para se tornar cada vez mais tecnológica, analítica e orientada por dados.

Da operação à análise: o novo perfil do profissional

A transformação do setor está diretamente ligada à digitalização das operações. Hoje, 83,6% dos profissionais já possuem ensino superior ou pós-graduação, um indicador claro de que as competências exigidas mudaram.

“Com a substituição de processos manuais por plataformas digitais, o setor passou a exigir competências tecnológicas que se alinham naturalmente ao perfil da Geração Z”, afirma Rony Neri, diretor-executivo LATAM da Platform Science.

Na prática, isso significa que o profissional da logística hoje precisa ir além da execução. Saber interpretar dados, operar sistemas e tomar decisões com base em indicadores passou a ser tão importante quanto entender a operação em si.

Tecnologia como linguagem, e diferencial competitivo

Se antes a tecnologia era um suporte, hoje ela é protagonista.

Ferramentas como GPS (presentes em 94% das empresas), telemetria (85%) e videomonitoramento (73,2%) já são amplamente utilizadas. Sensores com inteligência artificial para detecção de fadiga também avançam, presentes em 70% das companhias.

Mesmo assim, o uso mais sofisticado de IA ainda engatinha: apenas 13,5% das empresas têm a tecnologia integrada às operações.

É justamente nesse espaço que a nova geração ganha protagonismo.

“A Geração Z tem maior facilidade em análise de dados, uso de sistemas e automação”, diz Neri.

O que a Geração Z quer, e como isso pressiona o setor

Mais do que habilidades técnicas, a chegada dos jovens também traz novas expectativas sobre o trabalho.

“A nova geração valoriza ambientes que combinam tecnologia, segurança e propósito”, afirma o executivo.

Isso inclui:

Em um setor que opera 24 horas por dia, essa mudança de mentalidade cria um desafio relevante para as empresas.

Escala de trabalho entra no radar

A discussão sobre modelos de jornada, como a possível revisão da escala 6x1, ganha força justamente nesse contexto.

Na logística, onde as operações são contínuas, a adaptação não é simples. Mas, ao mesmo tempo, pode ser uma alavanca de atração de talentos.

Segundo Neri, a tecnologia pode ajudar a reduzir esse impacto.

“Estamos vendo uma transição de papéis: o analista deixa de ser um executor para se tornar um supervisor de processos autônomos. Quem passa a rodar as operações 24 horas por dia é a tecnologia.”

Ou seja: automação e inteligência de dados passam a sustentar parte da operação — abrindo espaço para discutir novos modelos de jornada.

O desafio da convivência entre gerações

Se por um lado a Geração Z acelera a transformação, por outro ela expõe um desafio interno: a convivência entre diferentes perfis profissionais.

De acordo com o estudo, 41% das empresas apontam a integração entre gerações como a principal barreira para a adoção tecnológica.

O motivo é claro: enquanto profissionais mais experientes dominam a operação, os mais jovens chegam com fluência digital, mas menos repertório prático.

Equilibrar esses dois mundos virou uma das principais tarefas da liderança.

A nova lógica da carreira na logística

O avanço da Geração Z indica que o setor está deixando para trás um modelo baseado apenas em execução para adotar uma lógica mais estratégica.

Hoje, segundo Neri, não basta saber operar.

“Competências tradicionais já não são suficientes. O setor exige visão analítica, capacidade de liderança e desenvolvimento contínuo de equipes, além de agilidade na tomada de decisão.”

Para quem está entrando no mercado, a logística pode não parecer o setor mais óbvio, mas está se tornando um dos mais dinâmicos para construir carreira.

E, para as empresas, o recado é ainda mais direto: adaptar-se à nova geração deixou de ser uma escolha. É uma questão de competitividade.

Para além das gerações: os desafios do setor

A pressão sobre o setor logístico vai além da falta de mão de obra jovem. A recente escalada de tensões no Oriente Médio, envolvendo Irã e Estados Unidos, elevou o preço do petróleo e já impacta diretamente o transporte rodoviário no Brasil, especialmente pelo aumento do diesel, principal custo da operação.

Esse cenário gera um efeito em cadeia: encarece o frete, exige reajustes nos contratos e aperta as margens das transportadoras, que precisam renegociar valores com embarcadores e parceiros. Ao mesmo tempo, a atualização dos pisos mínimos e a maior fiscalização ampliam a complexidade do setor.

Para Rodrigo Salerno, advogado e sócio do SAZ Advogados, o momento exige uma mudança estrutural na forma de operar.

“Hoje, precificação, compliance regulatório, gestão contratual e inteligência operacional fazem parte da mesma equação. Empresas que não reorganizarem essa estrutura tendem a perder margem, previsibilidade e competitividade”, afirma.

Entre algoritmos, contratos mais complexos e uma força de trabalho em transformação, o futuro da logística tende a ser menos sobre caminhões e mais sobre decisões e pessoas.

E, nesse cenário, quem não evoluir, em pessoas, processos e tecnologia, corre o risco de ficar pelo caminho.

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