'Ignorar profissionais maduros é perder competitividade'; diz Adriano Lima especialista de RH
O envelhecimento acelerado da população brasileira tem redirecionado estrategicamente a gestão de pessoas nas empresas: segundo o IBGE, em 2022 houve 32,2 milhões de pessoas com 50 anos ou mais no mercado de trabalho, e projeções indicam que, até 2050, cerca de 48% da força de trabalho estará na faixa dos 50+, o que torna essa mudança demográfica uma transformação estrutural e irreversível, e não apenas uma tendência futura.
Diante desse cenário, organizações passam a rever práticas de recrutamento, desenvolvimento e retenção para integrar profissionais mais experientes como peça central da estratégia de negócios, em linha com pesquisas internacionais que mostram que times mais etariamente diversos tendem a ter maior produtividade, estabilidade e riqueza de conhecimento tacito.
Ignorar esse movimento deixou de ser uma opção e passou a representar um risco competitivo, pois a exclusão de profissionais seniores compromete a transferência de conhecimento, reduz a diversidade de pensamento e enfraquece a cultura organizacional.
Programas estruturados aceleram mudança cultural
Hoje, algumas empresas já avançam na integração de profissionais mais experientes.
A Eurofarma, por exemplo, emprega mais de mil colaboradores acima dos 50 anos, sendo 183 com mais de 60, demonstrando que a valorização desse segmento é compatível com modelos de alta performance e inovação.
Francisco Eduardo Cardoso, coordenador de relações sindicais e trabalhistas, ingressou na companhia aos 63 anos por meio de um programa voltado à contratação de profissionais seniores, o que alterou sua percepção sobre o mercado: “Até pouco tempo atrás minha visão era que as empresas possuíam um viés inconsciente sobre a contratação de profissionais sênior”, afirma.
Segundo ele, a entrada na empresa mostrou um cenário diferente, com maior valorização da experiência e da capacidade de adaptação, corroborando estudos que apontam que profissionais 50+ costumam apresentar maior engajamento, menor rotatividade e forte senso de responsabilidade organizacional.
Etarismo ainda limita o potencial das organizações
Apesar dos avanços, o etarismo ainda é um obstáculo relevante. Segundo Francisco, parte do mercado ainda não reconhece plenamente a contribuição que profissionais seniores podem oferecer, em um contexto em que a média de idade da força de trabalho brasileira segue aumentando, mas a visão de “carreira curta” ainda domina muitas práticas de RH.
“O que mais me surpreendeu foi o fato de que grande parte do mercado ainda não enxerga a importância desses profissionais”, diz.
Para Adriano Lima, executivo de RH mais seguido no LinkedIn Brasil, a resistência à contratação de profissionais 50+ está mais ligada a modelos de gestão ultrapassados do que à capacidade real desses profissionais. “O principal fator hoje não é idade, é atualização”, afirma.
Carreiras mais longas exigem nova lógica de valor
O aumento da expectativa de vida no Brasil, que já supera os 76 anos, redefine a lógica de carreira e, consequentemente, a gestão de talentos. Trajetórias lineares perdem espaço para percursos mais longos e dinâmicos, com múltiplos ciclos de reinvenção.
Adriano Lima aponta que esse movimento exige uma mudança estrutural tanto por parte das empresas quanto dos profissionais. O modelo tradicional baseado em cargos fixos e progressões previsíveis deixa de ser eficiente diante de um cenário mais complexo e volátil.
“O maior risco não é envelhecer. É parar no tempo”, afirma.
Ele próprio exemplifica essa transformação ao ampliar sua atuação após décadas como executivo, incorporando novas frentes como palestras, conteúdo e atuação estratégica em diferentes formatos.
Modelos de gestão ultrapassados impactam desempenho financeiro
Apesar das evidências, a resistência à contratação de profissionais acima dos 50 anos ainda é significativa. Para Adriano, esse comportamento está mais ligado a modelos de gestão defasados do que à realidade do mercado.
Ele destaca que ainda há uma associação equivocada entre idade e baixa adaptabilidade, especialmente em relação à tecnologia. Essa leitura ignora um ponto central. Em um cenário onde competências se transformam rapidamente, a atualização constante se torna o principal diferencial competitivo.
“A resistência do mercado revela mais sobre modelos de gestão do que sobre a capacidade dos profissionais maduros”, afirma.
Esse desalinhamento entre percepção e realidade cria ineficiências na alocação de talentos, impactando diretamente a performance das empresas.
O futuro do trabalho será cada vez mais intergeracional
A presença de múltiplas gerações no ambiente corporativo tende a se intensificar: no Brasil, já coexistem, de forma significativa, gerações Baby Boomers, X, Millennials e Z, o que exige adaptações nas práticas de liderança e na gestão de equipes.
No entanto, ainda existe um desafio na preparação das lideranças para lidar com essa diversidade, pois muitos gestores continuam a rotular perfis por geração em vez de considerar competências individuais.
“O líder precisa parar de rotular gerações e aprender a liderar pessoas”, afirma Adriano Lima.
O foco, segundo especialistas, deve sair da categorização por idade e avançar para uma gestão centrada em competências, habilidades e individualidades, o que aumenta a capacidade da organização de extrair valor de diferentes formas de pensamento e experiências.
Empresas que conseguirem integrar diferentes gerações de forma estratégica — combinando a experiência dos profissionais mais velhos com a agilidade e o domínio digital das gerações mais jovens — terão vantagem competitiva em um cenário em que a longevidade deixa de ser exceção e passa a ser regra no mercado de trabalho, contribuindo para modelos de negócios mais resilientes, inovadores e sustentáveis.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: