O ano sabático fez esse CEO repensar o sucesso e a forma de liderar: ‘O glamour pode te desviar’

Por Layane Serrano 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O ano sabático fez esse CEO repensar o sucesso e a forma de liderar: ‘O glamour pode te desviar’

Em um ambiente corporativo que valoriza velocidade, metas e ascensão contínua, parar de trabalhar pode parecer um contrassenso. Mas foi justamente essa decisão que redefiniu a trajetória de Fernando Bueno.

Em 2019 o executivo viveu um momento limite. À frente de uma operação relevante de uma grande multinacional no Brasil, com alta pressão e duas filhas pequenas, ele começou a perceber sinais claros de esgotamento.

“Eu chegava em festa de criança, conversava 15 ou 20 minutos, se sentava no sofá e cochilava. Não é algo normal”, conta Bueno durante entrevista ao podcast “De frente com CEO” da EXAME.

A cena banal foi o alerta de que algo estava fora do eixo e uma motivação para ele apostar no ano sabático.

O ponto de virada: quando o sucesso deixa de fazer sentido

Depois de mais de uma década na mesma empresa e ocupando uma posição de liderança, Bueno decidiu interromper a carreira. Não para estudar ou fazer networking, mas para algo mais simples e, ao mesmo tempo, mais raro: se reconectar consigo mesmo.

“Eu senti uma drenagem da minha energia vital. Aquilo me desviou de valores que são muito importantes para mim,” diz.

O executivo também faz um alerta pouco discutido sobre cargos de liderança: o risco do “glamour”.

“Uma das coisas muito preocupantes para uma posição de liderança é o glamour que essa posição pode trazer”, diz. “O glamour pode te desviar. Você achar aquilo tudo bacana, estar em fóruns importantes, ter poder… e acabar vivendo só aquilo.”

Na prática, o que ele descreve é um tipo de armadilha silenciosa:

Para ele, isso foi parte do desequilíbrio que levou ao esgotamento antes do ano sabático.

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O sabático como reconstrução pessoal

Bueno passou cerca de um ano fora do mercado, incluindo três meses viajando pela Europa com a família. Mais do que descanso, o período foi um mergulho interno.

“Eu fui para me reconectar à minha essência,” afirma.

Logo nas primeiras semanas, percebeu algo que não via na rotina acelerada: o comportamento das próprias filhas.

“Eu pensei: como é que eu não estava vendo isso antes?”

O impacto foi profundo, pessoal, emocional e espiritual.

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A volta ao mercado, e uma escolha diferente

Ao retornar, Bueno não quis repetir a mesma trajetória. Após ouvir conselhos de outros CEOs, decidiu mudar o rumo da carreira.

“Por que você quer fazer o mesmo?”, ouviu Bueno de dois executivos.

A resposta veio com clareza: ele queria ampliar seu impacto, desenvolver novas áreas e, principalmente, levar o aprendizado do sabático para dentro das empresas.

“Aquela mudança me fez olhar para dentro de forma profunda e transformadora, e eu sabia que aquilo não podia ser só comigo”, conta. “Passei a pensar que, como CEO, poderia impactar de forma mais significativa a vida das pessoas.”

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O que o sabático mudou na liderança

A experiência transformou diretamente sua forma de liderar e suas prioridades.

Hoje, ele defende um conceito que ainda gera desconforto no mundo corporativo.

“As pessoas são muito mais importantes que o negócio”, diz. “No final do dia são as pessoas que vão fazer essa empresa ser do tamanho que ela quiser ser. Ela não vai sozinha.”

Na prática, isso se traduz em decisões concretas. Uma delas virou símbolo da sua gestão: todos os dias, das 19h às 21h, ele simplesmente não trabalha.

“Eu não atendo telefone, não respondo e-mail nem sinal de fumaça. Esse tempo é das minhas filhas,” diz Bueno.

A regra é conhecida por toda a empresa, inclusive pela liderança global. E, segundo ele, os resultados continuam vindo.

“Pergunta se o prato cai? Não cai. Continuamos crescendo e entregando resultado.”

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O efeito cascata na cultura

A mudança não ficou só no discurso. Ela se espalhou pela organização. Em uma visita à fábrica, Bueno contou em uma palestra sobre a sua forma de dedicar um tempo à família e isso impactou um dos funcionários.

“Uma pessoa me parou, tocou no meu ombro e disse: Você lembra quando veio aqui e falou que das 7 às 9 da noite você não atendia o telefone para ficar com suas filhas? Fiz isso e a minha vida mudou. Meus filhos estão mais felizes e eu venho trabalhar muito mais feliz do que eu vinha.”

Para Bueno, esse é o verdadeiro papel da liderança.

“Cultura é você viver o que acredita. O exemplo inspira.”

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O novo conceito de sucesso

A história de Bueno traz um contraponto importante em um momento em que temas como NR-1 e o debate sobre a escala 6x1 colocam a saúde mental no centro das discussões sobre trabalho.

Mais do que uma pausa na carreira, o sabático de Bueno representou uma redefinição de sucesso: o equilíbrio.

“A gente precisa equilibrar a saúde mental, física, espiritual e biológica,” diz. “Se a gente foca só no trabalho, as outras áreas um dia vão cobrar”.

O sabático também marcou um dos períodos mais significativos da sua vida pessoal. Anos depois, ele enfrentaria a perda da esposa para um câncer, precisando se reestruturar como pai e profissional.

“Hoje sou só eu e as minhas filhas e por isso admiro ainda mais mulheres que muitas vezes precisam trabalhar e cuidam dos filhos sozinhas. É um grande desafio,” diz.

Um tempo depois, em 2024, Bueno assume a presidência da operação da Philips Walita na América Latina (Grupo Versuni), levando consigo aprendizados do ano sabático que hoje orientam tanto sua agenda pessoal quanto sua forma de liderar.

E talvez a principal lição seja justamente essa: parar não significa retroceder, pode ser o caminho para avançar com mais clareza, mais sentido e mais saúde.

“No fim do dia, a gente precisa chegar ao trabalho e sair dele feliz e saudável, porque existe vida além dele”, afirma.

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Como surgiu o período sabático?

O conceito de período sabático tem origem antiga, e não nasceu no mundo corporativo, mas na religião.

A ideia vem do termo hebraico “Shabbat” (sábado), que significa descanso. Na tradição judaico-cristã, descrita na Bíblia, existia o chamado “ano sabático”:

Esse ciclo aparece, por exemplo, no livro de Levítico, e tinha um objetivo claro: equilibrar trabalho, natureza e vida humana.

Da religião para a academia

Séculos depois, o conceito foi incorporado por universidades, principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Professores passaram a ter direito a um “sabbatical leave”, uma licença após alguns anos de trabalho para: estudar, pesquisar ou simplesmente se renovar intelectualmente

Chegada ao mundo corporativo

Mais recentemente, o sabático entrou no universo das empresas e carreiras. Hoje, ele é visto como uma pausa voluntária, geralmente de alguns meses a um ano, para descanso e saúde mental, reconexão pessoal e/ou aprendizado ou mudança de rumo profissional.

Veja a entrevista completa de Fernando Bueno, CEO da Philips Walita na América Latina, ao podcast "De frente com CEO", da EXAME:

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