O caso da Levi's: a Copa do Mundo que tentou apagar as marcas das arenas
A Copa do Mundo de 2026 é a maior da história do esporte: 48 seleções, 16 cidades-sede, três países. Mas quem chegou a qualquer um dos estádios americanos nas primeiras rodadas encontrou um cenário inusitado: arenas sem nome, logotipos cobertos por lona e até condimentos com as marcas tapadas. Por trás disso está a política de "clean stadium" da FIFA, que proíbe qualquer publicidade de empresas que não sejam patrocinadoras oficiais do torneio dentro e ao redor das arenas durante o Mundial.
Em Copas anteriores, boa parte dos estádios foi construída para o evento, com contratos de naming rights inexistentes ou secundários. Em 2026, todas as 16 arenas já existiam, com acordos bilionários de patrocínio em vigor. Empresas como a SoFi, a MetLife e a NRG, que pagaram valores na casa de nove dígitos em dólares para estampar seus nomes nos maiores estádios do país, viram as arenas ganhar nomes genéricos para o torneio: Los Angeles Stadium, New York New Jersey Stadium, Houston Stadium.
O caso Levi's
O episódio mais comentado aconteceu em Santa Clara, na Califórnia, onde o Levi's Stadium, casa do San Francisco 49ers, passou a se chamar San Francisco Bay Area Stadium pela duração do torneio. O logotipo vermelho da Levi's na fachada foi coberto por uma lona branca, mas o corte da cobertura preservou o formato característico do símbolo da marca, popularmente conhecido como batwing. Fotos do estádio com a lona circularam nas redes sociais antes do primeiro jogo ali. A própria Levi's entrou na onda e trocou temporariamente a foto de perfil nas redes sociais para uma versão com o mesmo estilo de cobertura, além de publicar um vídeo com o som de "nobody's gonna know" do TikTok.
Em Houston, os organizadores gastaram mais de US$ 1 milhão (cerca de R$ 5,5 milhões) em remoção de sinalização e ocultação de logotipos no NRG Stadium. Em Boston, as máquinas de cartão de crédito do Gillette Stadium foram substituídas por outros modelos para o período do torneio. A coincidência é relevante: a Visa é um dos maiores patrocinadores da FIFA.
A estrela que não saiu
O símbolo da Mercedes-Benz na fachada do Atlanta Stadium foi a única exceção à política de "clean stadium" da FIFA na Copa de 2026: remover a estrela colocaria em risco a estrutura do teto retrátil (Wikimedia Commons)
Atlanta foi a exceção mais visível. O Mercedes-Benz Stadium tem no topo da arena uma estrela da montadora formada por oito painéis metálicos que se abrem e fecham como a íris de uma câmera. Remover ou cobrir a peça colocaria em risco a estrutura do teto retrátil. A FIFA abriu exceção e o símbolo ficou. A arena passou a se chamar Atlanta Stadium, mas a estrela da Mercedes-Benz continua lá em cima.
Dentro do MetLife Stadium, agora rebatizado de New York New Jersey Stadium, fãs atentos puderam notar que as letras do nome original ainda eram visíveis atrás dos painéis instalados para cobri-las. Nos mais de 80 mil porta-copos fixados nas cadeiras, o logotipo da MetLife permaneceu intacto: os organizadores resistiram ao pedido da FIFA de cobrir cada um deles pela magnitude do custo envolvido.
Molho de tomate sem marca
Na sala de imprensa do San Francisco Bay Area Stadium, ao menos 23 frascos de condimentos tinham as embalagens cobertas com fita preta. Heinz, mostarda, maionese: tudo sem identificação visível. Jornalistas relataram o episódio nas redes, acrescentando que os itens não eram gratuitos.
O BC Place, em Vancouver, é o único estádio que escapou completamente da política, por uma razão prosaica: a arena pertence ao governo da Colúmbia Britânica e não tem contrato de naming rights com nenhuma empresa privada. Não havia nada para apagar.
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