O futuro prateado já é presente — e está reinventando o empreendedorismo
Às vésperas de completar seis meses de portas abertas — aniversário que será celebrado no próximo dia 10 de março — a CASA EXAME–CBA recebeu na noite desta quinta-feira (5), em Florianópolis, os jornalistas Patrícia Pontalti e Nelson Motta para o 3º CBA Networking Experience.
Diante de uma plateia que lotou o espaço, os convidados conduziram uma conversa sobre longevidade, comportamento e as transformações que o envelhecimento da população brasileira vem provocando na economia e no mercado de trabalho.
O pano de fundo da discussão é um fenômeno demográfico claro: o Brasil está envelhecendo rapidamente. Hoje, quase 38 milhões de brasileiros têm 60 anos ou mais, número que deve crescer de forma acelerada nas próximas décadas.
Segundo dados apresentados durante a palestra, a cada 21 segundos uma pessoa completa 50 anos no Brasil, e o país deverá ter a quinta maior população idosa do mundo até 2030. "O futuro é prateado”, resumiu Patrícia Pontalti ao apresentar os dados sobre o envelhecimento populacional.
Ela explicou que o país vive um fenômeno conhecido como “tsunami prateado”, expressão usada para descrever o crescimento acelerado da população mais velha, resultado do aumento da expectativa de vida e da queda nas taxas de natalidade.“Hoje a gente vive mais e nasce menos”, afirmou.
Segundo os dados citados na apresentação, se em 1950 a expectativa de vida no Brasil era de cerca de 50 anos, hoje as pessoas vivem décadas a mais. No caso das mulheres, por exemplo, a fase pós-menopausa pode durar 30 ou até 40 anos, criando um novo ciclo de vida ativo, produtivo e economicamente relevante.
Um novo mercado
A mudança demográfica abre espaço para novas oportunidades de negócios.Consumidores com mais de 60 anos já representam cerca de 20% do consumo, segundo os dados apresentados durante o evento.
E esse público tem comportamentos muito diferentes das gerações mais velhas de décadas anteriores.“Os idosos de hoje têm um estilo de vida que há três décadas era associado aos jovens”, disse Patrícia.
Entre esses comportamentos estão relacionamentos iniciados em aplicativos, participação ativa em debates políticos, consumo frequente de cultura e uso intenso de tecnologia. Segundo ela, essa geração está conectada, utiliza redes sociais e já incorpora ferramentas digitais — incluindo inteligência artificial — no dia a dia.
O consumo desse público também se concentra em áreas específicas. Entre elas estão saúde (57%), cultura e lazer (44%), além de viagens, economia, esportes e participação social.Para Patrícia, um dos principais entraves para que esse mercado se desenvolva ainda mais rápido é o preconceito etário.
“O mercado precisa destruir o estereótipo de que velho não é pertinente”, afirmou. Ela também criticou a forma como o envelhecimento ainda é tratado na sociedade.“Estamos muito focados na beleza da juventude e pouco atentos à riqueza que existe na experiência de quem viveu mais tempo.” Entre
Empreender depois dos 50
A transformação demográfica também está mudando o mercado de trabalho.Segundo dados apresentados durante a palestra, mais de 650 mil pessoas com idade avançada empreendem hoje no Brasil. Entre as razões estão tanto a dificuldade de permanência no emprego formal após os 50 anos quanto o desejo de trabalhar com algo que faça mais sentido pessoal.
A média de idade do empreendedor brasileiro hoje gira em torno de 47 anos, segundo os dados citados.“O empreendedorismo a partir de uma certa idade diz respeito à felicidade”, afirmou Patrícia.Ela explicou que muitas pessoas passam décadas trabalhando em áreas que não escolheriam novamente. Ao atingir um estágio maior de estabilidade financeira e experiência profissional, decidem iniciar novos negócios.
Estudos do MIT (Massachusetts Institute of Technology) citados durante a palestra indicam que empreendedores de meia-idade tendem a ter mais chances de sucesso do que fundadores muito jovens, quando partem de ideias semelhantes.
Menopausa como business
A palestra também abordou a relação entre longevidade e o mercado voltado para mulheres. Segundo Patrícia, o preconceito etário costuma ser ainda mais forte no caso feminino. Mesmo assim, mulheres têm liderado a criação de novos negócios voltados para o público acima dos 40 e 50 anos.
Um dos exemplos citados foi o crescimento de produtos e serviços ligados à menopausa, que vêm gerando um novo nicho de mercado.“Mulheres estão usando a menopausa como business”, disse.
Esse mercado inclui suplementos, cosméticos, roupas adaptadas ao corpo nessa fase da vida e programas especializados de atividade física, além de conteúdo digital e eventos voltados ao tema.
Para Patrícia, essas iniciativas ajudam a redefinir a forma como a sociedade encara o envelhecimento feminino.“A idade não define nosso amor, nossa beleza, nossas escolhas ou nossas conquistas.”
A trajetória recente de Nelson Motta foi apresentada como exemplo de reinvenção na maturidade.O jornalista e produtor cultural iniciou sua carreira como escritor profissional apenas aos 50 anos e já publicou 19 livros.
Mais recentemente, encontrou um novo palco.“Eu pessoalmente nunca pensei muito sobre envelhecer. Fui tocando a vida e agora estou com 81 anos e nem notei”, disse. Para ele, envelhecer está mais relacionado ao acúmulo de experiência do que a limitações.“O corpo exige manutenção, mas a cabeça só vai melhorando.”Nos últimos anos, Motta passou a atuar também como DJ em festas e festivais, atividade que começou após um convite ligado à festa Good Night, voltada ao público acima de 50 anos.
“Já fiz de tudo na vida, mas nunca imaginei que ia virar DJ com 80 anos”, disse.Segundo ele, tocar para o público criou uma nova forma de conexão com as pessoas.“É maravilhoso ver as pessoas dançando felizes com a música que você está tocando.”Em um dos eventos recentes, o jornalista chegou a tocar para cerca de 15 mil pessoas no festival Doce Maravilha, do qual também é curador.
Curiosidade como motor
Além das apresentações como DJ, Motta também participa de um novo projeto ao lado da família.Ele criou a festa Noites Tropicais, organizada em parceria com os próprios netos. Enquanto eles cuidam da produção e da comunicação do evento, Motta assume a curadoria musical.“Na nossa festa tem gente de 18 a 80 anos dançando a mesma música”, disse.Para ele, essa convivência entre diferentes gerações é uma das formas de manter a mente ativa.“Eu gosto de conviver com a juventude. Sempre gostei.”
Ao responder perguntas da plateia, Motta afirmou que um dos fatores que ajudam a manter vitalidade intelectual ao longo da vida é a curiosidade.Ele disse que procura acompanhar novas tecnologias, conhecer artistas jovens e conversar com pessoas de diferentes áreas.“Eu tenho muita disposição para tudo.”Para ele, a idade não deve ser vista como limite para criar novos projetos.“Eu acho que não tem limite.”
Entre os presentes no bate-papo, Valda Stange, CEO da TopMed; Juan Pablo Boeira, PhD em Inovação, IA e CEO da Abstrato, Rodrigo Cancellier, soócio-diretor da agência 9 mm propaganda, e Andrea Druck, conselheira do Grupo Habitasul.
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