O que falta para a bolsa chegar ao recorde de fluxo estrangeiro
O capital externo retomou espaço e levou o Ibovespa a novas máximas no último ano. Segundo a EQI Research, o principal índice da bolsa brasileira já subiu cerca de 15% no início de 2026 e acumula alta de 55% desde 2025. Movimento que é puxado mais por uma realocação global para emergentes do que por melhora estrutural da economia brasileira.
Em um cenário de diversificação internacional, o Brasil voltou ao radar. Mas o fôlego recente ainda está longe de representar um retorno pleno ao apetite de outros ciclos.
Janeiro de 2026 registrou o maior fluxo mensal de entrada de capital estrangeiro da história, de R$ 26,3 bilhões. Se esse ritmo fosse mantido, o relatório estima que o fluxo externo poderia sustentar a alta da bolsa ao menos até setembro.
O dado chama atenção, mas a fotografia estrutural mostra que o estrangeiro ainda não voltou ao padrão histórico de participação.
Hoje, os investidores internacionais respondem por 52,2% do capital na B3. A média dos últimos 15 anos é de 56%. O pico foi registrado em 2017, quando a fatia chegou a 63,4%.
Para retornar apenas à média histórica, seriam necessários cerca de R$ 210 bilhões adicionais na bolsa. Para repetir o recorde de 2017, o volume poderia superar R$ 600 bilhões — estimativa considerada conservadora, já que parte do cálculo assume preços constantes. Na prática, um fluxo dessa magnitude tenderia a elevar as cotações, ampliando o montante necessário para atingir o mesmo percentual.
“Os R$ 600 bilhões seriam o melhor cenário, não o mais provável. A compra de ações poderia levar o Ibovespa para novos recordes. No primeiro momento, as empresas de maior liquidez se beneficiaram. Poderia ocorrer um segundo movimento em que as small caps se beneficiem”, pondera Stephan Kautz, economista-chefe da EQI Investimentos à EXAME.
Além da compra direta de ações, houve aumento expressivo na demanda por ETFs listados no exterior, como o EWZ, principal fundo atrelado ao Brasil em Nova York. O número de cotas do ETF cresceu 76,2% em 2025.
O capital se concentra em empresas de alta liquidez e grande capitalização, casos de Vale, Petrobras e Itaú. O resultado é uma abertura de desempenho entre as blue chips e companhias de menor porte.
Nesse contexto, os bombardeios americanos que atingiram o Irã no último fim de semana já produzem efeitos muito além do campo de batalha. Enquanto explosões são registradas em Teerã e mísseis cruzam o céu de Tel Aviv, o preço do petróleo disparava no mercado internacional e o chamado “índice do medo” saltava mais de 20%.
“O Brasil pode se beneficiar do aumento do preço do petróleo, por ser exportador, e por ter uma moeda que aprecie se o petróleo ficar alto. Porém, o aumento dos preços dos fertilizantes pode ser ruim para o agro. Em geral, depende de quanto tempo durará a alta do preço. Sobre a bolsa, pode ser positivo, pelo petróleo. Mas enquanto houver a sensação de aversão a risco, todas as bolsas estarão vulneráveis”, diz Kautz.
O que falta para o recorde
O estudo aponta haver espaço técnico para mais entrada de recursos. O volume necessário para voltar apenas à média (R$ 210 bilhões) é 40% superior a todo o capital estrangeiro investido diretamente na B3 desde 2008.
Mas fluxo não se sustenta sozinho. Para a alta deixar de ser tática e se tornar estrutural, as empresas precisam entregar crescimento de rentabilidade compatível com os preços atuais.
Até aqui, a valorização não foi puxada por uma inflexão clara na economia doméstica. Se os lucros não acompanharem as cotações, os ativos podem ficar caros demais — o que levaria o investidor estrangeiro a interromper o movimento de alocação.
O cenário político também começa a entrar na conta. Mudanças nas expectativas fiscais e nas projeções de crescimento influenciam diretamente o apetite externo. Em ciclos anteriores, como o de 2016 e 2017, a combinação de agenda reformista, fluxo global favorável e recuperação de resultados corporativos ajudou a elevar a participação estrangeira ao recorde.
“O impeachment da ex-presidente Dilma e o ajuste fiscal e cortes de juros que vieram depois ajudaram a impulsionar a atratividade dos ativos brasileiros. Além disso, 2016 foi um período muito ruim para a bolsa chinesa, uma outra opção de investimentos para os estrangeiros”, explica.
Hoje, o pano de fundo é diferente. O impulso vem mais da rotação global do que de um vetor doméstico claro.
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