Proteína 'indestrutível' pode mudar tratamento do câncer de pâncreas

Por Vanessa Loiola 16 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Proteína 'indestrutível' pode mudar tratamento do câncer de pâncreas

Um medicamento experimental pode representar um dos maiores avanços recentes no tratamento do câncer de pâncreas, um dos tipos mais agressivos e letais da doença. Chamado daraxonrasib, o remédio foi o primeiro a aumentar em seis meses a sobrevida de pacientes em um estudo clínico avançado.

A descoberta foi destacada pelo jornal The New York Times e envolve uma estratégia que atua sobre a proteína KRAS, associada ao crescimento da maioria dos tumores pancreáticos e de muitos casos de câncer de pulmão e colorretal.

Segundo a empresa Revolution Medicines, responsável pelo desenvolvimento do medicamento, pacientes com câncer de pâncreas metastático tratados com daraxonrasib viveram por mais de 13 meses em média. Entre os pacientes que receberam quimioterapia convencional, a sobrevida média ficou abaixo de sete meses.

Os resultados ainda não foram publicados em revista científica revisada por pares, mas, de acordo com o NYT, serão apresentados em uma importante conferência internacional sobre câncer nas próximas semanas.

Proteína KRAS era considerada 'impossível' de bloquear

Desde os anos 1980, cientistas sabiam que mutações no gene KRAS estavam ligadas ao crescimento de vários tipos de câncer. O grande desafio era que a proteína produzida por esse gene possuía uma superfície extremamente lisa, sem espaços evidentes onde medicamentos pudessem se ligar para interromper o avanço do tumor.

Durante décadas, pesquisadores descreveram a KRAS como uma espécie de “bola escorregadia”, praticamente impossível de atingir com remédios convencionais.

O cenário começou a mudar em 2013, quando o cientista Kevan Shokat, da Universidade da Califórnia em San Francisco, identificou uma pequena abertura na estrutura da proteína, mostrando que substância talvez pudesse ser bloqueada.

Estratégia usa espécie de 'cola molecular'

A nova abordagem utiliza uma técnica conhecida como “cola molecular”, capaz de unir moléculas à proteína KRAS para desativar os sinais que mantêm as células cancerígenas em crescimento constante.

A estratégia foi desenvolvida após décadas de pesquisas conduzidas por universidades, institutos científicos e empresas privadas. Depois disso, a Revolution Medicines aprimorou o método até chegar ao daraxonrasib.

Segundo os pesquisadores, os testes iniciais mostraram redução significativa dos tumores e efeitos colaterais considerados controláveis. Entre os efeitos adversos mais comuns incluem fadiga, náusea, diarreia, lesões na pele e rachaduras dolorosas nos dedos.

Especialistas afirmam que a descoberta pode representar um dos avanços mais importantes da oncologia desde o surgimento da imunoterapia.

Tratamento ainda não é cura definitiva

Os cientistas ressaltam que o medicamento não representa uma cura definitiva para o câncer. Parte dos pacientes não responde ao tratamento e, em muitos casos, o tumor volta a crescer após algum tempo.

Mesmo assim, pesquisadores afirmam que os resultados mudaram a perspectiva sobre tumores ligados à proteína KRAS, historicamente considerados difíceis de tratar.

Atualmente, dezenas de empresas farmacêuticas já desenvolvem medicamentos semelhantes para cânceres de pâncreas, pulmão e intestino. O daraxonrasib recebeu revisão acelerada da Food and Drug Administration (FDA) e pode ser aprovado nos Estados Unidos ainda este ano.

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