R$ 100 compravam mais de mil figurinhas da Copa em 2002; hoje, compram 70

Por Tamires Vitorio 1 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
R$ 100 compravam mais de mil figurinhas da Copa em 2002; hoje, compram 70

Em 2002, R$ 100 era dinheiro de sobra para completar o álbum da Copa do Mundo. Com essa quantia, o torcedor comprava a brochura por R$ 3,90 e ainda levava 192 pacotinhos para casa — 1.152 figurinhas, quase o dobro das 638 necessárias para completar a coleção, sem contar as repetidas. Sobrava até para trocar com o colega da escola.

Em 2026, os mesmos R$ 100 compram o álbum brochura por R$ 24,90 e dez pacotinhos. São 70 figurinhas, apenas 7% do que é preciso para completar o álbum de 980 figurinhas. Para cobrir a metade da coleção, seriam necessários outros R$ 100.

Para Paulo Feldmann, professor da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, o aumento no custo foi algo natural nos últimos anos. "A qualidade dos álbuns e das figurinhas melhorou de lá para cá, o que elevou o custo de produção. Com isso, parte desse aumento foi repassada ao preço final, ou a empresa teria prejuízo", afirma em entrevista à EXAME.

De edição em edição

O poder de compra do torcedor não despencou de uma vez. Foi uma erosão Copa a Copa, acelerada nas últimas três edições.

Em 2006, R$ 100 compravam o álbum e 160 pacotinhos. Cerca de 960 figurinhas, 145% do necessário para completar a coleção. Em 2010, 126 pacotinhos e 756 figurinhas, cobrindo 118% do álbum.

Em 2014, pela primeira vez, R$ 100 já não bastavam sequer para comprar todas as figurinhas necessárias sem repetição: 94 pacotinhos rendiam 564 figurinhas, 88% do total de 640.

A diferença ficou maior em 2018. Com R$ 100, o torcedor levava 46 pacotinhos e 230 figurinhas, apenas 34% das 682 necessárias. Em 2022, 22 pacotinhos e 110 figurinhas, 16% do álbum.

Quanto custa completar

O mínimo teórico — comprar exatamente a quantidade de envelopes necessária para ter todas as figurinhas, sem nenhuma repetida — subiu de R$ 57,40 em 2002 para R$ 1.004,90 em 2026. Isso é 1.650% de alta em 24 anos, contra um IPCA acumulado de 306% no mesmo período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Na prática, completar o álbum custa mais. A distribuição das figurinhas é aleatória, e repetições são inevitáveis. O custo real depende de quantas trocas o colecionador consegue fazer e do preço das avulsas no mercado secundário.

O que os números do IBGE mostram

O mínimo teórico de R$ 57 em 2002 para R$ 1.005 em 2026 representa uma alta de 1.650%. O IPCA acumulado no mesmo período é de 306%, segundo o IBGE. A diferença entre os dois índices — o custo de completar o álbum e a inflação oficial — nunca foi tão larga.

Corrigido pelo IPCA, o mínimo teórico de 2002 deveria custar R$ 223 em 2026. Custa R$ 1.005: um ágio de 350% acima da inflação, calculado com a série histórica do IBGE pela mesma metodologia da Calculadora do Cidadão do Banco Central.

Em 2002, completar o álbum cabia no orçamento de uma família de classe média com alguma folga. Em 2026, o mínimo teórico ultrapassa R$ 1.000 — e na prática, com repetidas, o custo é maior.

Como os cálculos foram feitos?

Para essa reportagem, foram usadas as taxas mensais do IPCA divulgadas pelo IBGE — o índice oficial de inflação do Brasil. Os dados estão na tabela 1737 do Sistema IBGE de Recuperação Automática (SIDRA), série histórica disponível ao público.

O cálculo segue a mesma metodologia da Calculadora do Cidadão do Banco Central do Brasil: multiplica-se o preço original pelo fator acumulado mês a mês entre junho do ano da Copa e março de 2026, última leitura do IPCA disponível no fechamento desta reportagem. O IPCA acumulado entre junho de 2002 e março de 2026 é de 306%.

O "mínimo teórico" é o custo de comprar exatamente o número de envelopes necessário para ter todas as figurinhas do álbum sem nenhuma repetida, somado ao preço do álbum brochura. Não considera a distribuição aleatória dos pacotinhos nem o mercado de trocas. O custo real de completar o álbum é maior.

Todos os cálculos foram feitos com as taxas mensais brutas do IBGE, sem arredondamentos intermediários, e com a ajuda de ferramentas de inteligência artificial (IA) como Gemini, Perplexity e Claude. O IPCA acumulado entre junho de 2002 e março de 2026 é de 306%.

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