Vai ter greve nacional dos caminhoneiros? O que se sabe até agora

Por Mateus Omena 18 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Vai ter greve nacional dos caminhoneiros? O que se sabe até agora

O avanço do preço do diesel e insatisfação com medidas do governo federal levaram os caminhoneiros a intensificar a articulação em torno de uma greve nacional, que pode ter início ainda nesta semana — embora não haja data marcada.

A mobilização se fortaleceu após assembleias recentes e já reúne lideranças de diferentes regiões do Brasil, informou o presidente da Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores (Abrava), Wallace Landim, ao jornal Folha de S.Paulo.

Segundo Landim, também conhecido como "Chorão", a mobilização reúne motoristas autônomos e profissionais contratados por empresas de transporte, sob regime CLT. A mobilização começou após assembleia realizada nesta segunda-feira, 16, no Porto de Santos (SP), que  reuniu lideranças de várias regiões do país.

"Como federação estamos mostrando nosso descontentamento e que as entidades sindicais filiadas à Fetrabens estão unidas com o caminhoneiro e vendo a possibilidade de auxiliar e intervir nesta situação de risco que é o desabastecimento e o aumento excessivo dos preços do combustível", disse Everaldo Bastos, presidente da Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas em Geral do Estado de São Paulo(Fetrabens) ao portal Notícias Agrícolas.

Segundo Bastos, há alguns pontos em que os caminhoneiros já estão parando. "Há alguns locais do país com paralisações já agendadas para amanhã, mas são todos movimentos independentes, todos ligados a sindicatos e alguns organizados pela própria categoria", afirmou.

Alíquota de PIS/Cofins e Alta do diesel

O ponto de pressão envolve medidas recentes sobre o preço do combustível. Em 12 de março, a União zerou as alíquotas de PIS/Cofins sobre o diesel e instituiu uma subvenção que poderia reduzir o valor em até R$ 0,64 por litro.

No dia seguinte, a Petrobras anunciou aumento de R$ 0,38 por litro no diesel A, combustível antes da mistura com biodiesel. A estatal indicou que o reajuste acompanhou a valorização do petróleo no mercado internacional, em meio à guerra no Oriente Médio. Para a categoria, o aumento anulou os efeitos práticos das medidas anunciadas pelo governo.

Entre as reivindicações, os caminhoneiros destacam o cumprimento da tabela de frete mínimo, prevista na Lei 13.703 de 2018, que instituiu a política nacional de pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas. À Folha de S.Paulo, o presidente da Abrava disse que a ausência de fiscalização permite operações abaixo do piso, o que reduz a renda dos motoristas.

Outras demandas incluem isenção de pedágio em viagens sem carga e maior previsibilidade nos custos operacionais, apontada como fator relevante para a continuidade da atividade.

Impasse sobre ICMS

A discussão envolve também os estados. Governadores rejeitaram um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para redução do ICMS sobre o diesel. As administrações estaduais afirmam que já registraram perdas com cortes anteriores e apontam impacto nas contas públicas.

O impasse limita o alcance das medidas federais e mantém o preço do combustível pressionado, ampliando o risco de paralisação.

O Brasil tem cerca de 790 mil caminhoneiros autônomos e aproximadamente 750 mil motoristas contratados, segundo estimativas do setor. Um movimento coordenado pode afetar a logística e a atividade econômica, como registrado em 2018, quando uma paralisação nacional causou enormes perdas.

Impacto da ameaça de greve no mercado

No mercado financeiro, o Ibovespa perdeu força ao longo do pregão e fechou em leve nesta terça-feira, 17, refletindo a cautela dos investidores no fim do dia. O principal índice da B3 encerrou com alta de 0,30%, aos 180.409 pontos, após superar os 182 mil pontos na máxima intradiária.

No câmbio, o dólar também desacelerou o movimento de queda e terminou o dia em baixa de 0,58%, cotado a R$ 5,199, após ter tocado R$ 5,17 na mínima do dia.

A perda de fôlego dos ativos no Brasil coincidiu com a notícia de uma possível greve de caminhoneiros e elevou a percepção de risco no mercado.

À EXAME, Bruno Perri, economista-chefe e sócio da Forum Investimentos, explica que o movimento foi influenciado pelo risco, ainda não confirmado, de paralisação. "Uma greve de caminhoneiros é algo bem negativo para os mercados. Pode impactar inflação, câmbio, curva de juros e tende a derrubar a bolsa, como vimos no passado", afirma.

Para ele, o fato de ainda se tratar de uma especulação limitou uma reação mais intensa. "Se fosse algo confirmado, provavelmente o mercado teria virado para queda, mesmo com o exterior positivo".

O economista também ressalta que uma paralisação é mal vista por afetar cadeias de suprimento, pressionar preços de alimentos e dificultar ainda mais o cenário para a inflação, justamente em um momento em que o Banco Central avalia a política monetária e, devido à guerra no Irã, pode trabalhar com pouco espaço para cortes na Selic. A decisão será divulgada nesta quarta, 18.

Na mesma linha, Ian Lopes, economista da Valor Investimentos, afirma que o mercado começou o dia em alta mais firme, acompanhando o otimismo externo, mas perdeu tração ao longo da sessão por conta do risco de paralisação dos caminhoneiros.

"O Ibovespa seguiu Nova York, que abriu em forte alta, e o dólar chegou a cair bem, mas isso foi perdendo força com notícias desencontradas sobre o conflito no Oriente Médio e, no fim da tarde, com a possibilidade de greve dos caminhoneiros, que puxou o mercado para baixo”, diz.

A piora de percepção também foi sentida na curva de juros. Adriano Casarotto, Portfólio Manager de Crédito da Franklin Templeton Brasil, afirma que as taxas passaram a subir com a notícia.

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