Zoom: a volta por cima de uma queridinha da pandemia
Poucas empresas simbolizam tão bem o auge — e o pós — da pandemia quanto a Zoom Video Communications. De estrela indiscutível do trabalho remoto a alvo de dúvidas sobre crescimento sustentável, a companhia passou os últimos anos tentando responder a uma pergunta central do mercado: o que vem depois?
A resposta, ao que tudo indica, está sendo construída em três frentes — inteligência artificial, clientes corporativos e disciplina financeira.
Durante uma apresentação na Conferência de Tecnologia, Mídia e Telecomunicações da Morgan Stanley 2026, a CFO Michelle Cheng deixou claro que a empresa não quer mais ser vista como “a plataforma de reuniões da pandemia”. A ambição agora é maior — e mais lucrativa.
“Evoluímos muito como empresa, deixando de ser apenas uma empresa de reuniões para nos tornarmos uma empresa com um portfólio muito mais amplo”, afirmou.
O motor corporativo volta a girar
Um dos sinais mais claros dessa virada está na composição da receita. O segmento corporativo já representa mais de 60% do negócio e cresceu 7% no quarto trimestre — movimento que ajudou a companhia a sair de um ritmo de crescimento de cerca de 3% nos períodos anteriores para 4,4% no consolidado, segundo a própria empresa em apresentação a investidores.
Mais do que um avanço pontual, a dinâmica reflete uma mudança na base do negócio. Segundo Cheng, quatro fatores sustentam essa inflexão: diversificação de produtos, monetização de IA, fortalecimento dos canais de venda e maior disciplina na execução comercial. Na prática, a Zoom tenta se reposicionar como uma plataforma empresarial mais ampla, não apenas como ferramenta de comunicação.
IA como estratégia — e não só discurso
Se há um eixo central nessa nova fase, ele é a inteligência artificial. A empresa tem destacado a integração da tecnologia ao negócio principal como uma de suas prioridades. O foco está em converter interações em resultados mensuráveis — o que a executiva chama de “sistema de ação”.
“O valor está em transformar conversas cotidianas em valor comercial tangível e real”, disse Cheng.
Na prática, isso envolve incorporar IA aos principais produtos da Zoom, incluindo o ambiente de trabalho, reuniões, serviços de telefonia e soluções de atendimento ao cliente, criando, assim, novas camadas de monetização.
Segundo a executiva, essa monetização ocorre em duas frentes. A horizontal inclui funcionalidades adicionais dentro da plataforma, como maior volume de consultas, uso de dados próprios e criação de agentes personalizados. Já a vertical envolve aplicações específicas, com destaque para o Contact Center.
No caso do segmento de atendimento ao cliente (Contact Center), a empresa cita um mercado que envolve cerca de 17 milhões de agentes de IA e US$ 200 bilhões em gastos, apontando oportunidades de aplicação de inteligência artificial nessas operações.
Esse segmento, por sua vez, tem sido apontado pela companhia como uma das frentes de expansão dentro da estratégia de diversificação de produtos. Conforme Cheng, parte dessa oportunidade está associada à substituição de soluções tradicionais por novas plataformas.
“[Players tradicionais] têm dívidas tecnológicas de uma base legada que estão tentando superar, enquanto a Zoom está começando do zero. Acho que é isso que nos impulsiona a sermos o centro mais rápido”, afirmou.
A executiva também destacou a integração entre diferentes produtos, como telefone, reuniões e central de atendimento, como um dos fatores nas vitórias comerciais recentes.
Entre os 10 maiores contratos da empresa, 7 envolveram substituição de concorrentes.
Como parte dessa estratégia, a companhia também anunciou a expansão de sua plataforma empresarial de IA, com a introdução de recursos de orquestração de fluxo de trabalho em produtos como Zoom Workplace, Zoom Phone e Zoom CX. As atualizações incluem agentes de IA personalizados e pré-configurados, além de novas integrações com terceiros.
A empresa também nomeou Russell Dicker como diretor de produtos, executivo com mais de 25 anos de experiência e passagens por empresas como Microsoft, Google e Amazon.
Crescer primeiro, otimizar depois
Apesar da retomada de crescimento, a Zoom tem indicado uma projeção de margem operacional em torno de 27%, abaixo da meta de longo prazo anteriormente mencionada, de 33% a 36%.
Segundo Michelle Cheng, a prioridade da companhia está na aceleração do crescimento. “[...] não vamos explorar as margens nessa região até vermos uma inflexão de crescimento significativamente maior”, afirmou.
A empresa também reporta uma posição de caixa próxima de US$ 8 bilhões, além de fluxo de caixa livre de US$ 1,9 bilhão no último ano fiscal.
Parte desse capital tem sido direcionada para recompras de ações, com cerca de US$ 2,7 bilhões já executados.
No que diz respeito à alocação de capital, Cheng afirmou que a companhia pretende manter uma abordagem disciplinada, com foco em crescimento, incluindo potenciais aquisições, especialmente em IA.
Desempenho das ações e visão de analistas
Enquanto o segmento corporativo avança, o negócio online — que foi o grande motor durante a pandemia — representa hoje menos de 40% da receita da Zoom.
Segundo a CFO, mais de 75% dos clientes online estão na plataforma há mais de 18 meses. “Conseguimos implementar aumentos de preço praticamente sem impacto na taxa de cancelamento, porque construímos uma plataforma sólida”, disse.
Como resultado do reposicionamento, o desempenho das ações da Zoom tem mostrado valorização recente. Os papéis atingiram máximas de 52 semanas, sendo negociados próximos de US$ 97, e acumulam alta de cerca de 25% no último ano, com avanço de 6,4% apenas na última semana.
Relatórios de analistas ouvidos pela CNBC citam fatores como a evolução da monetização de inteligência artificial e o desempenho de produtos como Zoom Phone e Contact Center como elementos que sustentam as perspectivas de crescimento da companhia.
A Wolfe Research elevou a recomendação para as ações da empresa para outperform e estabeleceu preço-alvo de US$ 115, o que implica potencial de valorização em relação aos níveis atuais. Conforme divulgado pela CNBC, o analista Alex Zukin acredita que preocupações anteriores sobre a durabilidade do crescimento e a monetização de IA têm diminuído, com evidências de melhora no perfil de crescimento.
“A força em Zoom Contact Center, o crescimento sustentado na faixa de meados de ‘teens’ em Zoom Phone e a monetização emergente de Voice AI estão impulsionando uma melhoria na durabilidade do crescimento que não está refletida nas expectativas atuais”, escreveu Zukin.
O analista também destacou a posição de caixa da companhia e a possibilidade de aquisições como fatores adicionais para sustentar a trajetória de crescimento.
Além disso, métricas de valuation também são citadas como suporte para a tese de investimento. A Zoom negocia a um índice PEG de cerca de 0,16 e, segundo análises do InvestingPro, a ação aparece como potencialmente subavaliada em relação ao seu preço considerado justo.
De acordo com a CNBC, ativos fora do negócio principal vêm sendo considerados por analistas. A Zoom Video Communications, por meio da Zoom Ventures, investiu US$ 51 milhões na Anthropic em 2023. Estimativas de mercado indicam que essa participação pode valer hoje entre US$ 2 bilhões e US$ 4 bilhões.
A valorização está associada às rodadas recentes da empresa de inteligência artificial, que teria recebido propostas para captação com avaliação entre US$ 850 bilhões e US$ 900 bilhões, conforme informações da agência.
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